A música que faz (fez) a gente ser quem a gente é
Nirvana, Pearl Jam, Bikini Kill, L7 e outras bandas me ensinaram que o rock também é político. Uma reflexão sobre música, adolescência, ativismo e formação pessoal.
Por Rachel Sardinha · 10 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Na adolescência, a gente cria os próprios conceitos e opiniões. E a música que a gente ouve nessa época acaba marcando mais do que o nosso gosto musical. A música (e a atitude presente nessa música) molda nosso estilo, jeito de ser e, muitas vezes, nosso jeito de pensar.
Gosto de pensar que fui bem “moldada”.
Ouvindo Nirvana eu comecei a ler sobre o “sistema” e que ser contra o sistema era o posicionamento da maioria dos artistas de rock. Lembro que perguntar pra minha mãe: “o que é o sistema?”.
Kurt Cobain falava contra machismo, contra homofobia, contra um modelo de capitalismo que deu muito errado quando beneficiava só quem já estava no topo e derrubava ainda mais quem já tava embaixo.
Com o Guns eu fui entender o que era a Guerra do Golfo; quem era Saddam, quem era Milošević; o que era uma guerra civil que eles cantavam contra. Com o U2 eu aprendi sobre a Guerra da Bósnia. Por causa do Sex Pistols eu fui pesquisar sobre anarquia e posicionamentos políticos.
Acompanhando o Pearl Jam, eu descobri o movimento pro-choice. Eu tinha 11, 12 anos. E ali fui aprendendo sobre o direito de escolha. Que, quando você é mulher, existem direitos e “direitos”. E que em alguns países as mulheres têm mais direitos do que em outros.
O rock é político
Por causa dessas bandas que estouraram nos anos 90 eu ia atrás de outras bandas. Descobri o L7, uma banda de rock só de mulheres que idealizou o Rock for Choice: um festival que tinha o objetivo de levantar verbas para acesso ao aborto seguro, falar sobre direitos reprodutivos e incentivar as pessoas a se registrar pra votar (já que nos EUA o voto é voluntário). Foi assim também que conheci Bikini Kill, Babes in Toyland, Veruca Salt, Hole e o movimento riot grrrl.
A música é uma forma de protesto, isso está claro. Você pode escolher suas armas: essas pessoas escolheram escrever as letras, levantar os instrumentos musicais, subir aos palcos. Faz quase 40 anos que a Kathleen Hanna tá na estrada gritando por direitos pras mulheres. Quarenta!
Não à toa, votei a primeira vez com 16 anos num candidato que nada tinha a ver com os candidatos dos meus pais. Todo adolescente é revoltado? “Quando crescer, passa”.
Eu cresci lendo jornal — e aqui preciso agradecer ao meu pai, que sempre assinou jornal (primeiro foi o Diário Catarinense, no final dos anos 80 e começo dos 90, e depois ficamos mais de dez anos assinando a Folha de S. Paulo, pelo menos de 1992 até algum momento dos anos 2000). Por isso, tenho convicção de que ler as notícias diariamente foi fundamental pra que meu conhecimento sobre o mundo se formasse da forma que considero justa.
Queda do muro de Berlim. Fujimori no Peru. O fim do Apartheid e a eleição de Nelson Mandela na África do Sul. Chávez entrando na Venezuela. Enquanto eu recortava as notícias sobre minhas bandas favoritas, também me informava sobre o que acontecia no mundo, no Brasil e no meu estado.
Foi também essa obsessão pela música que me levou naturalmente pro lado da comunicação e pra escolha do jornalismo como profissão.
Dá pra separar a música da política; o artista da obra?
É comum vermos a discussão sobre separar o artista da obra e sobre se um artista deve ou não se posicionar politicamente.
Na minha visão, a posição política do artista normalmente já está escancarada nas letras das músicas. Muitas vezes, nos eventos em que participa ou que deixa de participar. Eles não precisam necessariamente fazer discursos a favor ou contra algo — mesmo que muitos façam.
Basta o mínimo de interesse nas músicas que você escuta para saber sobre o que falam (e contra o que protestam) bandas como Rage Against The Machine e System of a Down. E Pearl Jam, Nirvana, Bikini Kill e outras já citadas aqui.
O que me faz questionar: se por acaso meu gosto musical fosse outro, seria eu muito diferente de quem sou hoje? Em estilo e amizades, provavelmente. Mas quero acreditar que, em relação a posicionamentos e escolhas, seria a mesma pessoa. Independentemente de quem estivesse no pôster colado na parede do meu quarto ou tocando no meu CD player lá nos idos de 1993.
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