Jimmy & Rats em Florianópolis: quando os ratos fazem a festa!
Fui ao show do Jimmy & Rats na Célula Showcase em Florianópolis, dia 11 de outubro, e aproveitei pra conversar com Jimmy London sobre música e os shows que marcaram a vida dele.
Por Rachel Sardinha · 14 de outubro de 2026 · 11 min de leitura

Era quase meia-noite quando as cortinas abriram e, no palco, a banda quase inteira de costas pra plateia, toda em volta do baterista. A música já avisa o que vem por aí e, um a um, os integrantes começam a se virar pro público. Banjo, acordeon, violão, baixo. Em uma “jam”, o espírito do “punk rock irlandês” do Rats toma conta do ambiente e, alguns minutos depois, Jimmy London surge para completar o grupo.
A Célula Showcase não estava lotada, mas também não estava vazia. A banda que tocou antes, Barba Rala, de Santa Rosa do Sul (no interior catarinense), segurou bem a ansiedade do público. Vi pessoas cantando as músicas deles — sinal de que eles tinham fãs naquela plateia. O evento foi organizado pela produtora Colher de Chá, também de Santa Catarina, e me pareceu que a escolha da banda de abertura foi bem acertada.
Mas a noite era do Jimmy & Rats. E que noite!
O público era formado por pessoas de várias idades. Tinha criança, tinha adolescente, jovem adulto (aquele que ainda não saiu da adolescência mas já tem os boletos da vida pra pagar) e pessoas da “nossa idade” — os 45+.
Jimmy London tem esse poder de conquistar gente de diferentes gerações. Quando ele entra no palco e pega o microfone, uma catarse coletiva toma conta do lugar. Qualquer lugar.
O punk rock irlandês com folk do Jimmy & Rats
Eu não conhecia o Jimmy & Rats. Sou fã do Matanza Ritual e adoro ir aos shows deles. Nada mais “natural” do que ir ao show do grupo “paralelo” do vocalista. E me surpreendi.
Os Rats já existiam e tinham um disco lançado quando o vocalista entrou no grupo, em 2018. A fama do novo membro ajudou a torná-los mais conhecidos, mesmo com a banda permanecendo na cena alternativa e independente. O próprio Jimmy me falou numa conversa antes do show que tem uma diferença enorme entre tocar nas duas bandas e que no Rats “é totalmente diferente”.
Claro, não conhecer tão a fundo o repertório da banda não foi um problema. Consegui agendar uma entrevista com o vocalista e até por isso havia feito uma pesquisa sobre Jimmy & Rats. Como boa virginiana, digo, jornalista, eu não poderia chegar despreparada (e a entrevista completa está no final deste texto).
Músicas que contam histórias, músicas de luta e uma catarse coletiva
As músicas do Rats têm mais instrumentos, arranjos mais trabalhosos; e talvez por isso tenham me causado essa surpresa positiva. Por um lado, gosto de ir a shows em que não conheço direito (ou não conheço nada) do artista: vou descobrindo tudo ao vivo, música por música. Por outro, saber mais de quem vai subir ao palco e conhecer as músicas previamente traz outra forma de apreciação. Acho que dá pra “curtir” mais o momento como fã e prestar menos atenção em cada detalhe.
Canções como Sol Menor e Anne Bonny têm a assinatura de Jimmy London na contação de histórias. Já Polca Paciência e Pra Nunca se Entregar, por exemplo, mostram o lado ativista do rock — e caíram muito bem nesse outubro de eleições.
Instrumentos incomuns em bandas de rock, como banjo, trompete e acordeon (acordeão? sanfona?) trazem um brilho e uma alegria pras músicas que são difíceis de encontrar em outros grupos do gênero. É uma mistura de música medieval com country, tudo embalado por rock. E ver uma mulher no palco dominando o espaço (mesmo que pequeno fisicamente) enquanto dança e toca o acordeon foi outra coisa que brilhou pra mim. Pedrita Rocha, responsável pelo som da sanfona no grupo, roubou a cena. Eu, pelo menos, saí encantada!
A apresentação ainda teve dois covers do Matanza (Tempo Ruim e Ela Roubou Meu Caminhão) e durou cerca de uma hora e meia. O suficiente para o público descarregar em gritos e rodas punk e de mosh o que quer que cada um segurasse dentro de si. O encerramento com Pra Nunca se Entregar fechou em uníssono uma noite de diversão pra quem estava na plateia e mais uma noite de força na cena da música independente.
Persistência, desobediência
Sangue nos olhos, sede de vitória
Liberdade, irmandade
Insubmissão, pra nunca se entregar!
Gilberto Gil, Beastie Boys, Circo Voador: em entrevista pro blog, Jimmy London relembra os melhores shows da vida dele, além de contar as diferenças entre tocar com o Matanza Ritual e com o Rats
Rachel: Qual o primeiro show a que você foi e que marcou a sua vida?
Jimmy: Cara, então, não vou lembrar qual foi o primeiro, com certeza. Eu vou lembrar desse lance que é importante pra mim, que é o Circo Voador na minha vida. Quando eu tinha 13, 14, 15 anos, começando a sair. Era um mundo diferente também, dava pra gente sair com 13 anos de idade, andar de ônibus à noite no Rio de Janeiro… já faz muito tempo. A gente ia muito pro Circo Voador e às vezes a gente nem sabia o que ia tocar, sabe? Mas a gente ia. E às vezes tinha show do Tim Maia, às vezes não tinha. Tinha muito show do Celso Blues Boy. Um show que mexeu com a minha cabeça lá foi um show do (Gilberto) Gil. Foi uma coisa muito impressionante. Isso deve ter sido... eu tinha meus 13 anos. Final dos anos 80, início dos anos 90. E essa atmosfera, o lance de andar na música e estar ali, foi muito bom. Foi realmente muito bom. Foi especial.
Rachel: Eu vi que vocês, Jimmy & Rats, tocaram a primeira vez, estrearam, lá no Circo Voador.
Jimmy: Sim. A gente abriu pro Flogging Molly, foi incrível. Primeiro show do Jimmy & Rats na vida foi abrindo pro Flogging Molly. Não podia ser mais legal. [Nota da editora: Flogging Molly é uma banda americana de rock-folk-céltico, no estilo punk rock irlandês do próprio Rats]
Rachel: Qual foi aquele show que você viu da plateia e conta: "eu fui naquele show!"?
Jimmy: Caralho, o show dos Beastie Boys no Imperator. Deve ter sido em 93, 94, 95 no máximo. Planet Hemp abriu esse show. Esse show foi incrível. Foi o que mais me marcou.
Rachel: Se você pudesse voltar no tempo e ir a um show que não foi, qual seria?
Jimmy: Johnny Cash, com certeza. O show do Mano Negra, também, de graça, nos Arcos da Lapa, que eu não fui. Me arrependo muito. Teve um show também do Black Sabbath, sem o Bill Ward, no Rio, lançando o (disco) 13. Eu não fui de preguiça, e foi agora, não tem muito tempo. Talvez eu devesse ter ido. Hoje em dia acho que eu me arrependo.
Rachel: Na época que estava no Matanza, vocês faziam cerca de 90 shows por ano. Tem algum desses que ficou marcado?
Jimmy: Nessa época aí, quando a gente fazia 90 shows por ano, a gente lembra de outras coisas, cara. A verdade é essa, porque é muita correria e é muito cansaço. Eu lembro mais da gente na van, rodando o Brasil inteiro de van, do que qualquer outra coisa. Mas, porrada de coisa legal. Goiânia sempre foi um lugar especial. Goiânia sempre teve uma cultura de rock muito forte. A gente chegando em São Paulo, começando a tocar no Hangar 110, também muito especial. É muita coisa, é muita coisa mesmo.
Rachel: E qual é a diferença entre tocar com o Rats e tocar com o Matanza Ritual?
Jimmy: Cara, é completamente diferente pra mim por vários motivos. Primeiro tem um motivo funcional. Que, pô, o Matanza Ritual tem uma equipe que tá comigo há 15, 20 anos, muito tranquilo, uma estrutura, óbvio, muito mais robusta. A gente toca muito mais, a gente tem aqueles músicos incríveis lá comigo tocando, o tempo todo. É muito legal. Mas é uma coisa que já tem ali um começo, meio e fim, uma estrutura toda montada, e já funciona. Você solta, aquilo ali acontece sozinho. Aqui não. Aqui é um show que eu tenho que pensar o tempo todo. Tenho que pensar o que eu vou fazer, o que está acontecendo. Não tem aquela memória da medula do que vai rolar no show. Gosto de tocar violão e eu não sei tocar violão... É totalmente diferente. Músicas muito diferentes, adoro também, é outra vibe. Na verdade, é um alívio, de certa maneira. Um alívio. Tenho uma rotina, né? Tenho o meu principal trabalho, que é o Matanza Ritual. E aqui é como se fosse uma fuga. Muito interessante. Estamos ouvindo o Fernando tocando trompete agora, sabe? (Fernando Oliveira, um dos fundadores do Rats, estava tocando ao fundo da entrevista) Sanfona, banjo, violão. Uma outra sonoridade, outras músicas, outras coisas sendo ditas. Mas mais do que isso, o jeito de agir aqui é totalmente diferente.
Rachel: Qual música você curte mais tocar com o Rats?
Jimmy: Eu gosto de tocar violão nesse show, né? Eu não toco violão o show inteiro, mas na parte que eu tô tocando violão, a gente toca "Sol Menor", por exemplo, que é a música que eu adoro.
Rachel: E tem alguma previsão de disco pela frente?
Jimmy: Acho que sim, a gente tá pensando em fazer. A gente tem feito uns EPs, assim, três, quatro músicas. Eu tenho gostado muito de fazer isso. O foco não é tão tenso quanto fazer um disco, mas a gente consegue botar uma opinião nossa no mundo. A gente tá pensando em fazer um agora.
Rachel: O que não pode faltar no camarim do Jimmy London?
Jimmy: Café e Coca Zero. Desculpem. Desculpem pela decepção, mundo.
Rachel: Um pingue-pongue rápido agora, então. Que música que tu gostaria de ter escrito?
Jimmy: É complicado, mas tem uma música do Kris Kristofferson chamada "Sunday Morning Coming Down". Vou falar dessa pra não falar nada do Bob Dylan, que aí ia ser muita pretensão.
Rachel: Uma banda ou artista que tu descobriu há pouco tempo e tá escutando direto?
Jimmy: Charley Crockett, que eu adoro.
Rachel: Qual aquele livro de música (ou que tenha música como cenário) que você acha que todo fã de rock tem que ler?
Jimmy: Todo livro que eu leio eu posiciono de algum jeito com... às vezes nem música, mas trilha sonora. Tem até um aplicativo que tem uns barulhinhos. Às vezes eu estou lendo, sei lá, um livro de Idade Média, eu boto uns barulhinhos de fogueira, de lobo. E aí eu estou lendo um sobre a Mongólia, eu boto um vento. Ou música, às vezes, né? Eu não consigo ouvir música com voz quando eu tô lendo, mas música instrumental eu gosto muito. Tem os livros do Cormac McCarthy. São muito interessantes. Ele tem ali uma trilogia sobre o Oeste, o México, os cavalos… eu acho que pra quem gosta de folk, country, cai muito bem. [Nota da editora: é a Trilogia da Fronteira, com os títulos Todos os Belos Cavalos, A Travessia, Cidades da Planície]
Rachel: E um filme ou documentário, que você acha que todo fã de rock tem que assistir?
Jimmy: Cara, isso é uma pergunta muito interessante, né? Porque você tem vários filmes que são pra falar sobre a história do rock. E você tem vários filmes que não têm essa pretensão e que acabam falando muito mais sobre isso. Sabe o filme que eu acho que tem a ver pra caralho com rock e pra mim tem a ver até com a metáfora de um show? É Um Drink no Inferno. O filme começa de um jeito e aí chega no meio, dá uma volta no mundo e vira uma coisa completamente diferente. E eu gosto de pensar em show desse jeito, assim, sabe? E, porra, no meio passando por coisas incríveis, como a Satanico Pandemonium, que é a personagem que aparece.
Rachel: Para finalizar: qual show você acha que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez na vida?
Jimmy: Foda, né? Porque vou falar o que todo mundo deveria fazer…Muito difícil falar isso, óbvio. Porque eu penso: caralho, todo mundo tinha que ver um show do Ozzy. Teve aquele show que eu te falei, que foi um show que mexeu muito comigo, que foi um show do Gil. Há mais de 30 anos e que ainda mexe comigo até hoje.
Rachel: O Gil ainda dá pra gente ver…
Jimmy: O carisma daquele homem. É, pois é. Que é aquele compositor, que é aquele cantor, que é esse cara, né? Ah, e o Jorge Ben. Não o Jorge Ben Jor. Jorge Ben é um show que eu queria ter visto. Porque o Jorge Ben Jor já foi pra um outro lugar, né?
Mais sobre esse show no Instagram:
Pra Nunca se Entregar, Jimmy & Rats ao vivo na Célula Showcase
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