Bikini Kill, Kathleen Hanna e por que o punk rock ainda é um amplificador do feminismo

Em 2022 eu vi o Bikini Kill em Los Angeles e, mais uma vez, comprovei a afirmação de que o rock é político e o feminismo sempre terá a música como uma grande aliada.

SHOWSFUI NAQUELE SHOW

3/10/20264 min read

bikini kill 2022
bikini kill 2022

Bikini Kill era mais uma das bandas que eu achava que não teria a chance de ver ao vivo. Primeiro, porque, em mais de 30 anos, nunca tinha vindo ao Brasil. Segundo, porque eu achava que o grupo não se reuniria novamente. Mas uma daquelas conjunturas do universo me colocou na mesma cidade que a banda em 2022. Aí, não tinha como não ir!

Quem é o Bikini Kill na fila do pão punk? Simplesmente um dos precursores do movimento punk feminista nos EUA do começo da década de 1990. O grupo, majoritariamente formado por mulheres, era (e ainda é) liderado por Kathleen Hanna, responsável pela maioria das letras. A banda terminou no final dos anos 90, com cada integrante seguindo seu rumo. Quase 20 anos depois da separação, veio um anúncio de reunião e uma turnê, agora com 100% das integrantes femininas.

Então, ao planejar minha viagem aos EUA em 2022 para ver alguns outros shows, descobri que o grupo faria uma apresentação em Los Angeles. Mandei mensagem convidando minha amiga que me receberia por lá e logo o show entrou no roteiro da viagem. E não era em um lugar qualquer: eu tive o prazer de assistir ao quarteto no palco do Greek Theater (diga-se de passagem, um dos lugares mais lindos para shows em Los Angeles).

Espírito jovem

O retorno da banda aos palcos havia sido adiado devido à pandemia. Inclusive, a banda que abriria o show precisou cancelar por causa da Covid e a abertura ficou com a comediante Lizzy Cooperman.

No palco, as mulheres do Bikini Kill eram energia pura. Uma banda de atitude, onde as integrantes se revezam nos instrumentos, falam sem filtros com o público e deixam claro que aquele palco também é um lugar político. Mulheres cantando, gritando, pulando e ocupando o espaço com a mesma intensidade que qualquer banda punk de jovens faria — talvez até mais.

“When she walks, the revolution's comin'
In her hips, there's revolution
When she talks, I hear the revolution”

A plateia tinha sim mais mulheres do que homens, mas eles estavam lá e também sabiam as letras. Pode parecer uma observação simples, só que quando falamos de músicas feitas por mulheres, muitos homens torcem o nariz (e não importa de qual movimento seja, ainda vemos machistas em todas as vertentes do rock, infelizmente).

The queen of the neighbourhood

Tem gente que só conhece a Kathleen Hanna por ter inspirado o nome da música Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. O Bikini Kill é de Olympia e o Nirvana, de Aberdeen, ambas as bandas do estado de Washington, e os integrantes frequentavam as mesmas festas e casas noturnas.

Pois bem, Kurt Cobain namorou por alguns meses Tobi Vail, baterista da banda de Olympia, e diz a lenda que Tobi usava o desodorante Teen Spirit. Numa noite regada a álcool e outras cositas más, Kathleen escreveu a frase “Kurt smells like Teen Spirit” na parede de um quarto. The rest is history! A própria Kathleen contou esse “causo” recentemente no podcast Music Makes Us, do Rock ‘N’ Roll Hall of Fame.

Mas reduzir a importância dessa mulher a essa curiosidade é injusto. Kathleen Hanna foi uma das figuras centrais da cena Riot Grrrl, que surgiu no final dos anos 80 e misturava punk rock, feminismo e cultura independente. A ideia era simples: criar espaços onde mulheres pudessem tocar, escrever, se expressar e falar sobre temas que raramente apareciam no universo do rock — direitos iguais, aborto, violência contra a mulher.

Juntamente com outras bandas lideradas por mulheres, como L7, Hole, Sonic Youth (com a co-líder Kim Gordon), o Bikini Kill virou um dos símbolos desse movimento.

Nas apresentações, a vocalista costumava incentivar que as mulheres fossem para a frente da plateia. “Girls to the front!”, uma forma de inverter uma constante nos shows, onde o espaço perto do palco normalmente é dominado por homens.

“That girl, she holds her head up so high
I think I wanna be her best friend, yeah.”

Depois do fim do Bikini Kill, Kathleen Hanna ainda formou o Le Tigre, outro grupo importante da cena alternativa dos anos 2000. Em determinado momento ela chegou a se afastar da música por causa de problemas de saúde, mas voltou aos palcos alguns anos depois. Hoje, além de continuar envolvida com o Bikini Kill, ela também apresenta o podcast Music Makes Us.

O Bikini Kill e Kathleen Hanna viraram referência na história da música independente — e na história das mulheres no rock. Não podemos reduzir o grupo a “só mais uma banda com mulheres”. Ao ver a banda de volta aos palcos, vemos o retorno de algo que nunca deixou de fazer sentido e que, infelizmente, parece ser cada vez mais necessário: dar voz à luta pelos direitos das mulheres.

Mais do que apenas um show

Presenciar um show do Bikini Kill é assistir ao punk e ao feminismo ganhando voz juntos, no mesmo palco. É ver mulheres ocupando espaço, levantando bandeiras e lembrando que o rock também é "lugar de mulher".

O show no Greek Theatre foi intenso, barulhento e cheio de atitude, exatamente como eu imaginava que seria. E enquanto assistia à banda no palco, fiquei pensando em quantas artistas surgiram depois delas. São muitas as mulheres que encontraram espaço no rock, no punk ou no indie (e até em qualquer outro gênero musical) porque alguém, em algum momento, decidiu subir num palco e dizer que aquele lugar também era delas. Também é nosso!

Talvez seja por isso que ver o Bikini Kill ao vivo tenha sido tão marcante.

Não foi apenas um show, mas um lembrete de que a música pode (e deve) ser uma forma de resistência. O rock é político e algumas bandas, muito mais do que tocar boas músicas, ajudam a mudar o cenário inteiro.


ps. Dois anos depois de eu assistir ao show, o Bikini Kill veio ao Brasil pela primeira vez e fez duas apresentações em São Paulo. Mas nesses eu não fui 🙁. Se por acaso você esteve em algum desses shows, me conta como foi!

pps. Trechos da música Rebel Girl, a canção mais conhecida do grupo, foram propositalmente inseridos no meio do texto. Faça um favor a você mesma (o) e vá escutar essa música.

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