O primeiro show do Pearl Jam no Brasil: o que eu lembro daquela noite em Porto Alegre, mais de 20 anos depois
Em 2005 o Pearl Jam veio ao Brasil pela primeira vez. Depois de uma longa espera de quase quinze anos — que naquela época parecia uma eternidade — finalmente pude assistir a uma das bandas que mais marcaram minha adolescência e que continuam ressoando na minha vida.
PEARL JAMSHOWSFUI NAQUELE SHOW
5/19/20265 min read


O Pearl Jam é daquelas bandas que tocam todos os dias no meu Spotify. Também, pudera: acompanho o grupo desde que lançaram o primeiro disco, Ten (1991), assistia (e gravava em uma fita VHS) a todos os clipes que passavam direto na programação da MTV e de outros programas musicais que eram bem populares naquele início dos anos 90 (aliás, minha relação com o Pearl Jam pode render um post aqui só sobre isso, mas fica para um outro momento).
Talvez por isso eu tenha achado que eles demoraram muito para vir ao Brasil. A primeira tour da banda por aqui foi no final de 2005, com shows em quatro cidades. E serviu pra comprovar que a espera valeu a pena tanto pra gente quanto pra eles, que lotaram estádios e, desde então, continuam dando sold out nas apresentações aqui no país.
Lembro perfeitamente de quando começaram os boatos de que o Pearl Jam iria tocar no Brasil. Lembro de abrir a Folha de São Paulo no dia 25 de agosto (meu aniversário!) e ler que estava tudo alinhado para a vinda deles. Ali dizia que o Pearl Jam já tinha acertado cinco shows no Brasil e que, mesmo sendo informação não oficial, as pistas já estavam em fóruns da internet e até no site da banda. E realmente: quando você entrava no site, a música que tocava ao fundo era Garota de Ipanema.
Dito e feito. Alguns dias depois, o anúncio oficial chegava nos emails do fã-clube e nos jornais e portais de notícias do Brasil. Finalmente eles viriam para os lados de cá!
Foram poucos meses entre a divulgação e a realização dos shows. Muito bem calculado, consegui me organizar para ir a dois deles — Porto Alegre e Curitiba — e pensar a logística de deslocamentos da forma que menos impactasse no meu trabalho. Nesse meio tempo, ainda troquei de emprego e, na entrevista para o novo trabalho, informei àquela que seria minha chefe que eu precisaria faltar por dois dias por causa de “compromissos já agendados”.
A fila, o calor e a sensação de ser esmagada
O primeiro show do Pearl Jam no Brasil foi em Porto Alegre, no dia 28 de novembro de 2005. Aliás, esse também foi o primeiro show a que eu fui sozinha.
O local: ginásio Gigantinho. Naquela tour, o Ten Club (fã-clube oficial da banda) disponibilizava acesso ao local do show uma hora antes das portas abrirem pro público geral. Lá fui eu pra fila do Ten Club. Só que todos estavam ali por um único motivo, então, em poucos minutos, todo mundo estava conversando com todo mundo.
“I have wished for so long
How I wish for you today”
Consegui ficar na segunda fileira após a grade. Foram algumas horas de espera em que o calor só piorava. Não tinha como sair dali e os vendedores de água não conseguiam chegar lá na frente. Após muita insistência do público, os seguranças começaram a distribuir água para quem estava perto do palco. Hoje em dia esse hábito é bem comum, mas há 20 anos não era. Foi uma salvação!
A banda abriu a apresentação com Long Road, música “lado B”, mas que nem por isso era desconhecida. Todos na minha volta sabiam a letra. Eu tenho uma teoria de que abriram com essa música mais calma para segurar a onda e a empolgação do público que há anos esperava por esse dia.
A minha teoria estava certa (pelo menos em relação a segurar a onda). Quando começou a terceira música, Do The Evolution, eu precisei fazer uma escolha: ou ficava lá na frente e desmaiava esmagada e com falta de ar, ou iria para trás e sobreviveria até o final do show. Escrevo esse texto vinte anos depois, logo, sobrevivi para contar.
“Here’s my church
I sing in the choir!”
A vantagem do Gigantinho é que ele não é lá tão gigante. Consegui me posicionar mais no meio da pista e mesmo assim a visão do palco era perfeita. Foram algumas músicas tocadas em sequência até o Eddie Vedder dar seu alô para a plateia e conversar conosco. Foi no final de Jeremy:
— Bem-vindos ao nosso primeiro show nesse grande país do Brasil. Obrigado por esperarem tanto tempo por nós.
Agora, além de cantar as músicas em coro com todos ao meu redor, eu também teria que controlar as lágrimas de felicidade e emoção que insistiam em cair dos meus olhos.
(A propósito: fiz um breve vídeo sobre esse show para o Instagram do blog, e lá tem a gravação dessa fala do Eddie).
Com um setlist bombástico (como deve ser), o Pearl Jam fez dois encores (voltou pro bis duas vezes). No primeiro deles, convidaram o baterista dos Ramones, Mark Ramone, para tocar I Believe in Miracles. Esse encore teve ainda I Got ID, Crazy Mary e Alive.
Já o segundo e último começou com Elderly Woman Behind The Counter in a Small Town, engatou com Corduroy e Blood, e finalizou com Baba O’ Riley e Yellow Ledbetter.
“The waiting drove me mad!
You’re finally here, and I’m a mess!”
O primeiro show do Pearl Jam no Brasil foi, de fato, uma verdadeira festa, com direito a bolo e a clássica Parabéns Pra Você entoada em coro para o Matt Cameron, baterista da banda que estava de aniversário naquele dia.
A apresentação terminou lá pela meia-noite e, na manhã seguinte, enquanto aguardava meu voo de volta pra casa, vi o Mark Ramone no aeroporto folheando uns livros na livraria do saguão de embarque. Cheguei em Floripa ainda de manhã, a tempo de ir para o trabalho no período da tarde. Só mais algumas horas e logo eu estaria embarcando em uma excursão para o show de Curitiba (que foi no dia 30 de novembro).
Com um pequeno aparelho de celular que só fazia ligações e enviava mensagens, me restou guardar as lembranças desse primeiro show só na minha memória. Tenho na minha “memorabilia” o pôster da turnê sul-americana, o canhoto do ingresso já bem apagado (que é a foto que ilustra esse post do blog) e um cd em MP3 (sim, um cd!) com a gravação do show na íntegra. O Pearl Jam sempre disponibiliza para compra o áudio de cada show que o grupo faz, e esse show de Porto Alegre foi também a minha primeira compra de MP3 por download. Ah, os primórdios da internet!
Depois desse primeiro show do Pearl Jam, vi a banda nas outras passagens pelo Brasil e, em dois anos diferentes, estive nos EUA para prestigiar algumas apresentações do grupo: dois shows em Seattle e dois em Boston, em 2018; e três shows na Califórnia, em 2022 (aqui no blog tem textos sobre esses últimos shows — os de Los Angeles e o de Fresno).
Com uma lista de músicas sempre imprevisível e fãs fervorosos que seguem a banda por cidades, países e continentes afora, o Pearl Jam é uma dessas bandas que sempre valem a pena assistir ao vivo. Seja pela performance do grupo, seja pela emoção ou pela empolgação da plateia. E você nunca sabe qual música eles vão tocar a seguir e qual surpresa (ou surpresas) vai aparecer no setlist feito momentos antes da banda subir ao palco.
