Freddie Mercury: como cresceu, viveu, e como o vocalista do Queen se tornou uma lenda

Minha resenha (cheia de opinião) sobre a biografia do cantor Freddie Mercury, escrita por Lesley-Ann Jones e lançada no Brasil em 2013

LI AQUELE LIVRO

3/2/20264 min read

freddie mercury biografia livro
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Eu conheci o som do Queen no ano seguinte à morte de Freddie Mercury. A música Bohemian Rhapsody estava na trilha sonora do filme Wayne’s World (que no Brasil foi lançado como “Quanto mais idiota, melhor” — não deve existir título mais idiota que esse) e a banda lançou na MTV um videoclipe que alternava trechos do filme com os músicos do Queen no palco.

Desde então eu me considero fã. Nunca deixei de escutar nas décadas seguintes. Acontece que eu ouvia Queen com um olhar ouvido de fã, algo muito passional. Mas após ler a biografia de Freddie, sinto que passei a compreender o som da banda de uma forma diferente.

Sempre vi o Freddie como um cara “presença”: presença de palco, presença de voz, uma presença espetacular. Um verdadeiro rockstar, no sentido mais literal da palavra.

Mas o livro tira o Freddie do palco e o traz para a realidade. Apresenta um homem cheio de camadas, dúvidas e contradições.

Freddie Mercury: a biografia definitiva foi escrito por Lesley-Ann Jones, uma jornalista que trabalhava com jornalismo musical cobrindo shows e acompanhando artistas em apresentações e lançamentos no Reino Unido (hello, sonho de vida!).

No próprio livro a autora conta como foram as conversas e entrevistas para a apuração das informações. Além disso, ela conheceu Freddie; uma pequena parte dos relatos são de vivências dela com ele (achei bem interessante como ela se coloca na história, em primeira pessoa mesmo).

A obra “desmonta” o personagem rockstar e nos apresenta um homem que, ao mesmo tempo em que queria ser uma lenda, era reservado e até solitário.

Zanzibar e zoroastrismo

Saber sobre a infância e adolescência dele num internato na Índia dá um panorama da relação dele com os pais e com a música. Foi lá que Farrokh Bulsara ganhou o apelido de Freddie e que ele formou o primeiro grupo musical — The Hectics — onde ele cantava com outros colegas de turma.

Enquanto eu lia o livro, procurava escutar um álbum citado num trecho ou pesquisar um local abordado em algum parágrafo. Por exemplo, eu sabia que Freddie não era inglês, mas não sabia que ele tinha nascido em Zanzibar, no leste da África (hoje, um território da Tanzânia). Ou que ele foi criado numa religião persa chamada zoroastrismo e como a fé e as crenças impactaram na relação dele com os pais (e com ele mesmo).

Todos os lados do cantor estão expostos no livro. Namoradas e namorados, brigas, a relação com os outros integrantes da banda. Como ele era nos estúdios, nos camarins, nos palcos, nas festas pós-show. Porém, também o apresenta nos momentos mais íntimos, nos jantares exclusivos, nas festas para família e amigos, nas relações de amizade.

Foi interessante notar que a biografia aborda alguns pontos bem diferentes do que foi apresentado no filme Bohemian Rhapsody, lançado em 2018 sobre a vida do vocalista: como os integrantes formaram o Queen, como ele descobriu o HIV e como ele não contou aos colegas de banda sobre a doença quando já estava com Aids. “Eles simplesmente entenderam e nunca mais falaram sobre o assunto”.

A história do Queen se mistura com a história de Freddie Mercury, então o livro também traz muito sobre a formação e os anos da banda até a morte do vocalista.

A ascensão do Queen no mundo do rock não foi nada como eu imaginava. A banda ralou no começo, levou alguns golpes de advogados e empresários a ponto de já estarem excursionando por outros países da Europa e até no Japão, e os integrantes não terem praticamente dinheiro no banco.

O show deve continuar

Os processos de criação e gravação dos últimos discos do Queen também estão descritos lá e mostram a evolução da doença em Freddie, influenciando letras e melodias.

Innuendo, o último álbum lançado com Freddie ainda vivo, traz a música The Show Must Go On, mostrando que, apesar de todo o sofrimento e dor, ele precisava continuar sendo a estrela que o mundo conhecia, mesmo que estivesse definhando por dentro. Ouvir essa música após ler o livro tem um significado bem mais profundo pra mim.

Aliás, as mesmas músicas que eu escutava quando era adolescente agora soam diferentes, pois eu as interpreto de outra forma. Eu escuto uma canção e lembro de uma passagem contando como foi escrita, como foi gravada ou em que momento a banda e Freddie estavam quando escreveram aqueles acordes e letras.

Não quero dar (mais) spoilers, mas posso dizer que é um livro com muito conteúdo. Gravações, festas, álcool, drogas, turnês, viagens; está tudo descrito e bem detalhado nas quase 500 páginas da obra. O livro cumpre o que promete e mostra a pessoa de verdade por trás (ou dentro) do astro de rock que todos conhecemos. E explica por que Freddie se tornou uma lenda, como ele mesmo dizia que seria.

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