O dia em que uma lenda do punk rock tocou na "Dubai brasileira" (ou O show do Ramones em Balneário Camboriú)

A cidade da música eletrônica, dos prédios altíssimos que fazem sombra nas praias e dos apartamentos multimilionários já foi palco de um histórico show da banda punk de Nova York. E eu fui naquele show!

SHOWSFUI NAQUELE SHOW

2/2/20263 min read

ingresso acid chaos tour ramones sepultura
ingresso acid chaos tour ramones sepultura

Deve ter um jovem por aí dizendo que é lenda, mas sim, um dos principais ícones do punk rock, o Ramones, se apresentou em Balneário Camboriú.

A cidade catarinense conhecida internacionalmente pelas festas de música eletrônica, pelos apartamentos vendidos a dezenas de milhões de reais e pelas praias cobertas com as sombras dos prédios sediou, nos anos 90, um show desse que foi (e ainda hoje é) considerado um dos principais nomes do punk rock mundial.

Acid Chaos Tour

O Ramones incluiu Balneário Camboriú no itinerário da turnê que fez com o Sepultura em 1994. Intitulada Acid Chaos Tour, a tour promovia os últimos discos das bandas: Acid Eaters, coletânea de covers da banda punk americana, e Chaos A.D., na época o mais recente disco de estúdio do grupo brasileiro.

Mesmo com letras em inglês (como praticamente todas as músicas lançadas pelo Sepultura, na estrada desde 1985), o álbum que chegou ao mercado em 1993 tinha algumas influências que remetiam aos sons da nossa cultura. Além de uma pegada abrasileirada na percussão e bateria, tinha uma faixa com o nome de um povo originário e um estilo meio folclore-indígena; e a versão brasileira do disco ainda trazia um cover de Polícia, dos Titãs, como faixa bônus.

O canal MTV, em alta no país, contribuiu para a popularização de estilos musicais até então pouco comerciais, e os videoclipes de Refuse/Resist e Territory, ambos do Chaos A.D., figuraram no top 10 diário da programação naqueles idos de 1993 e 94.

Já os Ramones estavam com um pé na estrada e outro na aposentadoria. Como já somavam 20 anos de carreira, por mais que a tour promovesse o álbum de covers, claro que a banda prometia um setlist de clássicos.

Hey! Ho! Let’s go!

A noite contou com três shows: Raimundos, Ramones e Sepultura (nessa mesma ordem). O Raimundos era uma banda nova de Brasília, tinha lançado o primeiro álbum naquele mesmo ano, e já havia estourado nas rádios e na MTV. Uma das grandes inspirações deles era o próprio Ramones!

Os novatos abriram as apresentações. Não lembro muita coisa (faz mais de 30 anos!), mas lembro das rodas punk e do calor que fazia dentro do péssimo lugar escolhido para sediar o evento (um pavilhão enorme na beira da BR-101, com zero estrutura para apresentação musical).

Depois do Raimundos, subiram ao palco os Ramones. A banda de Nova York surgiu no lendário CBGB e vinha ao Brasil pela quarta vez. Com dois dos integrantes originais (Joey e Johnny Ramone), contava ainda com CJ Ramone no baixo (substituindo Dee Dee, que saiu em 1989) e Marky Ramone, que estava no grupo desde 1978, quando assumiu a bateria no lugar de Tommy Ramone.

Uma vez no palco, Joey se colocou naquela posição clássica dele, em frente ao pedestal, um pé na frente, o outro atrás. Parecia que fincava os pés no chão (inclusive, em 2015 eu dei uma entrevista pro jornal Notícias do Dia — hoje ND — falando dessa lembrança curiosa e do ingresso que guardo até hoje e que ilustra esse post). Foi show intenso, quase sem pausas entre uma música e outra, muitos “one, two, three, four!” e “Hey! Ho! Let’s go!”.

A última banda da noite foi o Sepultura, ainda com os irmãos Max e Iggor Cavalera. Como era uma turnê para promover o disco Chaos AD, muitas das músicas do setlist eram desse álbum, além de alguns hits mais conhecidos dos discos anteriores.

Esse foi meu primeiro show do Sepultura. Desde então, já assisti ao grupo pelo menos mais seis vezes. Lembro de ver a banda na finada Lupus Beer (de acordo com o Google, foi em 2002). Depois, na única vez que encarei um Planeta Atlântida, em 2004. Em 2022 assisti a dois shows em menos de um mês: no Hard Hock Live (hoje Arena Opus) e no Rock in Rio (quando eles tocaram com a Orquestra Sinfônica Brasileira). E, por último, os shows da tour de despedida em 2024 e 2025, na Arena Opus.

A apresentação do Sepultura, encerrando a noite histórica de 11 de novembro de 1994, em Balneário Camboriú, marcou uma noite inesquecível para o rock (e para os fãs de rock) de Santa Catarina. Esse dia me marcou também porque foi a primeira vez que viajei de excursão para ver um show. E, mesmo sendo uma viagem de apenas uma hora (entre Florianópolis e Balneário Camboriú), para uma menina de 14 anos viajando com umas amigas para assistir a bandas de rock, foi mesmo uma experiência incrível!